Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho
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Por que um livro de memórias pode ser mais valioso do que uma simples crônica do passado?

Um livro de memórias não devolve o passado. Ele escolhe o que do passado ainda serve para alguma coisa. A diferença aparece já nas primeiras páginas de “Pequenas Histórias e Algumas Percepções”, em que o empresário Alfredo Moreira Filho reúne episódios que vão da Fazenda Furado, em Igrapiúna, no interior da Bahia, até a vida em Brasília. O que sustenta o volume não é a sequência de endereços. São as decisões tomadas em cada um deles.

Essa distinção define o destino de qualquer memória escrita. Relato que informa apenas o que aconteceu, envelhece na estante. Relato que registra por que alguém escolheu determinado caminho segue sendo consultado por gente que nem havia nascido quando o livro foi impresso.

A lembrança guarda o critério, não a data

O cheiro da casa de farinha permanece. Quem recorda monta a cena com o material de que dispõe hoje, e não recupera um registro intacto. Há um padrão conhecido nesse processo. Adultos de qualquer idade recordam mais episódios ocorridos entre os 10 e os 30 anos do que de outras fases, fenômeno chamado de pico de reminiscência. São os anos em que se decide sair de casa, escolher um ofício, aceitar trabalho longe. Daí vem o miolo da maioria dos livros de memórias.

Por que escrever sobre si em terceira pessoa?

Quem narra a própria vida tende a defender o personagem. Alfredo contornou o problema com um recurso simples: batizou de FILHO a figura que o representa e conta tudo em terceira pessoa. O afastamento tem efeito prático, porque permite registrar derrota sem convertê-la em lição heroica.

Um exemplo aparece na passagem do concurso bancário. Aprovado na prova, o candidato foi reprovado no exame psicológico por não desenhar bem uma árvore, item central do teste. O episódio poderia ter ficado de fora. Ficou, e é ele que dá crédito ao resto do livro.

A escolha que vira legado tem custo declarado

Dona Rosa, mãe do autor, formulou o que a família passou a chamar de saga: tirar os filhos da fazenda, um a um, e mandá-los estudar onde houvesse escola. Foram doze. O terceiro deixou a casa dos pais aos sete anos para morar com os avós em Salvador e, aos treze, já trabalhava como contínuo de banco, ganhando meio salário mínimo.

O que torna a decisão transmissível não é o resultado. É o preço, que Alfredo Moreira descreve sem suavizar: pais que abriram mão da convivência com as crianças porque haviam concluído que aquela terra não lhes ofereceria futuro. Com o custo à vista, o episódio deixa de ser anedota de família e vira critério aplicável a um dilema completamente diferente, décadas depois.

O que um neto encontra em um livro assim?

Pesquisadores da Universidade Emory montaram uma escala de vinte perguntas sobre a história dos pais e dos avós: onde nasceram, como se conheceram, que dificuldades sérias enfrentaram. As crianças que respondiam mais apresentavam autoestima mais alta e maior senso de controle sobre a própria vida. Esse conteúdo não se aprende por observação. Precisa ser contado.

É a função que o registro escrito assume dentro de casa. Os valores éticos e morais que sustentam a família Barreto Moreira não se transmitem por enunciado, e sim pelo caso concreto em que alguém pagou um preço para mantê-los de pé.

O passado que ainda decide alguma coisa

Por volta dos vinte anos, o rapaz olhou os colegas de banco, do atendente ao gerente, e concluiu que não queria aquele futuro. Pediu as contas sem ter outro emprego, voltou para a casa dos pais em Ituberá, deu aula como professor substituto e só então conseguiu entrar na faculdade de agronomia. Saber o que não se quer também é método.

Legado, nesse sentido, tem pouca relação com patrimônio. Tem relação com o que continua orientando decisões depois que quem decidia já não está. Ao fixar em livro as pequenas histórias que reuniu, Alfredo Moreira Filho deixou menos um documento sobre o que viveu e mais um repertório para quem vier depois.

 

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