Atos de 7 de Setembro entram na estratégia de Flávio Bolsonaro em disputa apertada com Lula
Manifestação na Avenida Paulista reuniu cerca de 28,5 mil pessoas e colocou críticas ao STF no centro da reta final da campanha presidencial.
O 7 de Setembro de 2026 ultrapassou novamente o caráter cívico das comemorações da Independência e tornou-se palco da disputa política nacional. Na Avenida Paulista, em São Paulo, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) liderou uma manifestação que reuniu aproximadamente 28,5 mil pessoas no momento de maior concentração, segundo levantamento independente do Monitor do Debate Político da USP e do Cebrap, em parceria com a organização More in Common.
Realizado a menos de um mês do primeiro turno das eleições de outubro, o ato foi utilizado pela campanha para intensificar críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Flávio também manifestou apoio ao ministro André Mendonça em meio à crise que envolve integrantes da Corte. A estratégia ocorre justamente quando pesquisas mostram uma corrida presidencial muito competitiva: levantamento Quaest divulgado neste início de semana colocou Lula e Flávio empatados com 41% cada em uma simulação de segundo turno.
A manifestação, entretanto, apresentou público inferior ao registrado em atos semelhantes de anos anteriores. Isso cria uma questão política importante: o 7 de Setembro fortaleceu a estratégia eleitoral de Flávio Bolsonaro ou revelou limites na capacidade atual de mobilização do bolsonarismo nas ruas?
Como Flávio Bolsonaro transformou o 7 de Setembro em ato de campanha?
A manifestação da Avenida Paulista teve caráter explicitamente eleitoral. O evento foi organizado pela campanha presidencial de Flávio Bolsonaro e reuniu lideranças políticas que buscam consolidar a candidatura como principal representante da direita na eleição de 2026. Entre os participantes estavam nomes como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, além de parlamentares e dirigentes partidários.
Durante o discurso, Flávio direcionou críticas a Lula e a Alexandre de Moraes e tentou associar politicamente o governo federal às decisões e controvérsias envolvendo o ministro do Supremo. O STF ganhou protagonismo na manifestação em um momento particularmente delicado para a Corte, que enfrenta uma crise interna relacionada às disputas entre Moraes e André Mendonça e aos desdobramentos do caso Banco Master.
Esse contexto oferece à campanha uma pauta capaz de mobilizar parte do eleitorado que já acompanhava Jair Bolsonaro. Durante os últimos anos, manifestações convocadas pelo campo bolsonarista frequentemente combinaram críticas ao Supremo, defesa do ex-presidente e oposição ao governo Lula. Em 2026, Flávio tenta adaptar essa mesma estrutura política à própria candidatura, apresentando-se como continuidade de uma base eleitoral construída pelo pai.
A Reuters destacou que a crise no Supremo criou uma oportunidade política para Flávio Bolsonaro intensificar críticas às instituições e ao governo durante a campanha. Ao mesmo tempo, a disputa presidencial está suficientemente equilibrada para que acontecimentos externos à economia e às propostas tradicionais de governo tenham potencial para influenciar o debate eleitoral.
Lula adotou uma estratégia diferente durante o feriado. Em Brasília, participou do desfile cívico-militar e utilizou o discurso institucional para enfatizar temas como soberania nacional. O contraste ficou evidente: enquanto o governo buscava associar a data às comemorações oficiais da Independência, a oposição utilizava a Avenida Paulista para realizar um grande ato político contra o presidente e integrantes do STF.
Dessa forma, o 7 de Setembro funcionou como uma espécie de fotografia antecipada da reta final da campanha. De um lado, Lula procura explorar a posição de presidente e a defesa institucional do governo. Do outro, Flávio tenta mobilizar o eleitorado de oposição utilizando bandeiras que historicamente aproximaram apoiadores do bolsonarismo.
O que o público de 28,5 mil pessoas revela sobre a força da mobilização?
A estimativa mais detalhada para a manifestação da Paulista foi produzida pelo Monitor do Debate Político da USP, em parceria com o Cebrap e a More in Common. O levantamento calculou aproximadamente 28,5 mil participantes às 16h32, momento considerado de maior concentração do evento. A margem de erro informada é de 12%, o que coloca a estimativa entre aproximadamente 25,1 mil e 32 mil pessoas.
A metodologia utilizou 12 fotografias aéreas captadas por drone, analisadas com um sistema de inteligência artificial capaz de identificar indivíduos na multidão. Essa informação é importante porque manifestações políticas frequentemente produzem números divergentes divulgados por organizadores, autoridades e adversários. Uma estimativa acompanhada de metodologia e margem de erro oferece uma referência independente para avaliar o tamanho do evento.
Quando comparado com anos anteriores, o número mostra redução. Segundo a mesma série do Monitor, o ato bolsonarista realizado em 7 de setembro de 2025 reuniu 42,2 mil pessoas na Paulista. Em 2024, foram estimadas 45,4 mil pessoas, enquanto o evento de 2022 registrou aproximadamente 32,7 mil participantes. Não houve manifestação equivalente na avenida em 2023.
Isso significa que o público de 2026 foi aproximadamente 32,5% menor que o registrado no 7 de Setembro de 2025, de acordo com a comparação baseada nas estimativas do mesmo monitor. A redução ganha relevância porque o evento deste ano ocorreu em plena campanha presidencial e em um momento de forte exposição pública da crise no Supremo.
A queda, porém, não permite concluir automaticamente que houve redução equivalente do eleitorado de direita ou da intenção de voto em Flávio Bolsonaro. Comparecimento a manifestações e preferência eleitoral são indicadores diferentes. Uma pessoa pode votar em determinado candidato sem participar de atos de rua, assim como manifestações podem reunir grupos especialmente engajados sem representar proporcionalmente toda a base eleitoral.
Essa distinção fica ainda mais clara quando os dados das pesquisas são considerados. A Quaest apontou 41% para Lula e 41% para Flávio Bolsonaro em uma eventual disputa de segundo turno, mesmo com o público da Paulista abaixo dos atos de anos anteriores. O levantamento ouviu 2.004 pessoas entre 3 e 6 de setembro e possui margem de erro de dois pontos percentuais.
Portanto, o número de participantes funciona principalmente como medida da capacidade de mobilização presencial naquele evento específico. Para a campanha, uma multidão na principal avenida de São Paulo produz imagens, discursos e conteúdo para redes sociais. Para analistas, entretanto, a comparação histórica sugere que a mobilização não alcançou o tamanho registrado em alguns dos principais atos bolsonaristas recentes.
Por que a crise no STF pode ganhar ainda mais espaço na eleição?
A manifestação ocorreu justamente quando o Supremo atravessa uma crise institucional incomum. Nesta terça-feira, 8 de setembro, André Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada. Uma maioria da Segunda Turma do STF apoiou a medida.
A decisão faz parte de uma disputa mais ampla envolvendo Mendonça e Alexandre de Moraes, relacionada a relatórios de inteligência e às investigações ligadas ao Banco Master. As diferentes acusações apresentadas no episódio ainda dependem de apuração e não devem ser tratadas como responsabilidades definitivamente comprovadas. Mesmo assim, a dimensão pública do conflito tornou o funcionamento interno do Supremo um assunto relevante da campanha presidencial.
Flávio Bolsonaro procura explorar politicamente esse ambiente. Na Paulista, sua campanha direcionou parte significativa das críticas a Moraes e buscou associar a atuação do ministro ao governo Lula. Essa associação é uma posição política da campanha, e não significa que decisões do STF sejam determinadas pelo Palácio do Planalto. A separação entre essas duas coisas é importante para compreender o discurso eleitoral sem apresentá-lo como fato institucional comprovado.
O tema também possui forte ligação com Jair Bolsonaro. Moraes teve papel central nos processos envolvendo o ex-presidente, incluindo sua condenação relacionada à tentativa de golpe após as eleições de 2022. Isso ajuda a explicar por que críticas ao ministro continuam capazes de mobilizar uma parcela importante do eleitorado bolsonarista e por que Flávio utiliza o assunto para reforçar sua ligação política com a trajetória do pai.
A estratégia, entretanto, envolve riscos eleitorais. Uma campanha excessivamente concentrada no STF pode mobilizar eleitores já alinhados à direita, mas não necessariamente responder às prioridades de brasileiros preocupados com renda, emprego, segurança, saúde ou custo de vida. À medida que o primeiro turno se aproxima, Flávio precisará decidir quanto espaço dedicar à crise institucional e quanto reservar para propostas de governo.
Para Lula, o desafio é diferente. O presidente precisa evitar que a crise do Supremo seja politicamente incorporada à imagem de seu governo ao mesmo tempo em que busca manter um discurso de respeito às instituições. A proximidade numérica registrada pelas pesquisas aumenta a importância dessa disputa de narrativas, porque pequenas mudanças entre eleitores indecisos podem alterar significativamente o cenário.
O 7 de Setembro mostrou que a Avenida Paulista continua sendo um espaço relevante para a mobilização da direita brasileira, mas também revelou um público inferior ao de atos anteriores medidos pela mesma metodologia. Os 28,5 mil participantes representam uma mobilização expressiva, embora abaixo dos 42,2 mil registrados em 2025 e dos 45,4 mil de 2024.
Mais importante para a campanha será descobrir se a mobilização das ruas pode ser convertida em votos. Com Lula e Flávio Bolsonaro empatados em uma das principais simulações de segundo turno, o resultado de outubro permanece aberto. O ato da Paulista indica que Flávio pretende fazer das críticas ao STF e da herança política do bolsonarismo elementos centrais de sua reta final. A resposta do eleitorado mostrará se essa estratégia consegue ampliar sua base para além dos apoiadores que já estavam mobilizados.
Fontes:
Reuters — milhares participam de ato de Flávio Bolsonaro em meio à disputa apertada com Lula
Reuters — Quaest aponta empate entre Lula e Flávio Bolsonaro
UOL — Monitor da USP estima 28,5 mil pessoas na Avenida Paulista
UOL — comparação do público com manifestações de anos anteriores
Folha de S.Paulo — Flávio Bolsonaro leva críticas a Lula e Moraes ao ato do 7 de Setembro






