Mercado financeiro brasileiro se reinventa: Novos horizontes em ativos problemáticos com Felipe Rassi
Assim como destaca o empresário Felipe Rassi, uma mudança silenciosa, mas significativa, vem ocorrendo na estratégia de alocação de capital de gestoras, fundos e investidores institucionais no Brasil. Ativos que até pouco tempo atrás eram tratados como problemas a serem evitados ou descartados com desconto máximo passaram a ser objeto de disputas estruturadas e análises sofisticadas por players que enxergaram neles uma classe de investimento com características únicas de retorno ajustado ao risco.
Este artigo analisa os fatores que impulsionaram essa mudança de estratégia, como ela se manifesta na prática do dia a dia dos mercados, quais são as implicações para diferentes participantes do ecossistema financeiro e o que esse movimento revela sobre a maturidade crescente do mercado de capitais no Brasil.
O que motivou a mudança de estratégia dos grandes players em relação a ativos problemáticos?
A transformação na percepção dos ativos problemáticos pelo mercado financeiro brasileiro tem raízes em múltiplos fatores que se combinaram ao longo da última década. Conforme Felipe Rassi, o primeiro e mais estrutural é a compressão dos prêmios de risco nos ativos convencionais. Com a queda histórica da taxa Selic em determinados períodos e a consequente redução dos retornos em renda fixa tradicional, investidores institucionais com metas de retorno elevadas foram obrigados a explorar classes de ativos anteriormente ignoradas ou consideradas demasiadamente complexas. Os ativos problemáticos, com seu potencial de retorno superior ao mercado e sua baixa correlação com os ciclos de renda variável convencional, tornaram-se uma alternativa estrutural atrativa.
O segundo fator foi a evolução do arcabouço legal que rege os processos de reestruturação empresarial no Brasil. As reformas na legislação de recuperação judicial e falências trouxeram maior previsibilidade ao processo, reduziram a ambiguidade sobre a ordem de preferência dos credores e criaram mecanismos mais eficientes de proteção a determinadas classes de crédito. De acordo com o especialista no mercado financeiro Felipe Rassi, essa maior segurança jurídica reduziu o desconto de risco que os investidores exigiam para entrar nesse mercado e viabilizou estratégias de prazo mais longo que antes seriam inviáveis dado o nível de incerteza institucional.
O terceiro fator é o desenvolvimento de competências internas nas gestoras brasileiras. A formação de equipes especializadas em situações especiais, a importação de metodologias desenvolvidas nos mercados mais maduros de crédito distressed norte-americano e europeu, e a construção de um histórico de casos locais que permitiu calibrar as premissas de avaliação para a realidade brasileira criaram uma massa crítica de conhecimento no mercado que viabilizou uma atuação muito mais profissional e sistemática nesse segmento.
Como essa mudança de estratégia se manifesta nas operações cotidianas do mercado?
A manifestação mais visível dessa mudança estratégica é o crescimento do número de veículos de investimento dedicados a ativos problemáticos registrados na Comissão de Valores Mobiliários. FIDCs com foco em créditos inadimplentes, fundos de investimento em participações com estratégia de situações especiais e estruturas de crédito privado com componente de distressed são cada vez mais comuns na indústria de gestão de recursos brasileira. Essa proliferação de veículos representa não apenas maior disponibilidade de capital para o segmento, mas também a formalização de uma indústria que antes operava de forma mais fragmentada e menos transparente.

Felipe Rassi
No mercado de recuperação judicial, a mudança se manifesta na maior sofisticação dos credores que participam das assembleias decisórias. Os fundos que adquiriram posições relevantes de crédito chegam às assembleias com análises detalhadas do plano de reestruturação proposto, com contrapropostas fundamentadas e com uma capacidade de influência proporcional ao volume de crédito representado. Segundo o empresário Felipe Rassi, esse protagonismo dos credores financeiros especializados está transformando a dinâmica dos processos de recuperação judicial, tornando-os, na média, mais eficientes e mais orientados para a preservação do valor econômico do negócio.
Quais são as implicações dessa tendência para diferentes participantes do mercado financeiro?
Para os investidores institucionais, a consolidação do mercado de ativos problemáticos como uma classe reconhecida de investimento abre uma janela de diversificação de portfólio com características únicas. O perfil de retorno dos ativos problemáticos, com correlação baixa com a renda variável convencional e potencial de geração de alfa consistente para gestores com competência diferenciada, complementa de forma eficiente carteiras construídas predominantemente com ativos tradicionais. À medida que a indústria cresce e a transparência aumenta, espera-se que a alocação nessa classe por parte de fundos de pensão, seguradoras e endowments brasileiros aumente progressivamente.
Para as empresas em dificuldade, a maior disponibilidade de capital especializado no segmento de ativos problemáticos representa uma melhora concreta nas opções disponíveis em momentos de crise financeira. A existência de múltiplos fundos competindo pelo mesmo ativo cria uma dinâmica de mercado que tende a resultar em melhores condições de reestruturação para os devedores, com investidores dispostos a aceitar condições mais favoráveis em troca de posições em empresas com bom potencial de recuperação. Como elucida Felipe Rassi, essa concorrência pelo deal é saudável e produz resultados melhores para o ecossistema como um todo.
Para o mercado financeiro como sistema, a maturação do segmento de ativos problemáticos contribui para uma alocação de recursos mais eficiente e para uma maior resiliência do sistema de crédito. Quando existe um mercado secundário ativo e bem precificado para créditos problemáticos, os incentivos para que as instituições originem crédito com responsabilidade aumentam, pois os custos de uma carteira mal gerenciada são mais visíveis e mais imediatos. Esse efeito disciplinador, ainda que indireto, contribui para a saúde de longo prazo do sistema financeiro brasileiro.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez







